SOLIMAR

É com imenso prazer que hoje venho através deste contar-lhes um pouco da minha história de vida. Meu nome é Solimar Dutra da Silveira, estou com 19 anos de idade e sou estudante universitário. Venho de uma família humilde e muito simples. Natural de Boa Esperança do Iguaçu, interior do sudoeste do Paraná, com aproximadamente 2.800 habitantes, sou o filho mais velho dos meus pais, hoje com 37 anos (minha mãe) e 39 anos (meu pai). Quando eu nasci, minha mãe tinha apenas 17 e meu pai 20 anos. Fui o primeiro neto paterno e o segundo materno. Na época meu pai trabalhava em um posto de combustível, como meus pais estavam casados há apenas 2 anos, poucos bens materiais possuíam, sendo que um destes já existentes era uma simples casinha de madeira, chão batido com pedras trituradas de construção e pouquíssimos móveis dentro, em um terreno que havia sido comprado com economias do meu pai de quando ainda era solteiro. Minha mãe dedicava-se apenas a cuidar do filho recém-nascido.
Meus pais não haviam terminado a escola. Minha mãe estudou apenas até 4ª série do Ensino Fundamental e meu pai até a 8ª. Estes sem um nível de instrução maior, resolveram mudar para uma cidade com novas oportunidades em busca de melhores empregos e bons salários. Então nos mudamos para Caxias do Sul-RS quando eu tinha aproximadamente 2 anos. Chegando lá, começaram a morar na parte inferior de uma casa, onde pagavam aluguel. Logo arrumaram emprego e eu ficava aos cuidados de uma vizinha. Após 2 anos na cidade realizaram uma grande conquista, a qual foi a compra de um terreno e a construção de uma casa. Lembro como se fosse hoje a alegria do casal do interior em uma casa construída com muito suor e batalha, muitos sábados e domingos trabalhados para reunirem o máximo possível de dinheiro e pagar todos os materiais necessários. Após a mudança iniciei o pré-escolar em uma escola particular existente no interior, na época comandado por freiras. Lembro que meus pais estavam sem carro na época, e muitas vezes por falta de dinheiro devido as contas e mensalidades do colégio e transporte, em reuniões de pais iam a pé até o colégio e para voltar, pagavam o transporte coletivo porque estavam comigo e tinha medo de assaltos ou algo do tipo. Neste colégio de educação básica aprendi muito, inclusive a ler. Já no primeiro ano do ensino primário, devido aos custos, tive que mudar para um colégio público.

Passados 5 anos na cidade, meus pais decidiram voltar para o Paraná, sendo que um dos principais motivos na época era a distância dos demais familiares, por estarem sozinhos em uma cidade tão grande. Meus pais venderam a casa, fizeram acertos nas empresas onde trabalhavam e mudaram novamente para Boa Esperança do Iguaçu para trabalhar em um sítio, cuidando dos animais. Tudo estava indo bem, meus pais estavam com dinheiro guardado no banco, eu estava estudando no colégio municipal e neste período teve o nascimento do meu primeiro irmão (atualmente com 12 anos). Um ano depois, meu pai investiu o dinheiro em uma linha de ônibus, entre Boa Esperança do Iguaçu e Dois Vizinhos. Mudamos para a cidade, construímos casa nova, carro do ano, tudo estava bem. Quando eu completei 12 anos, comecei a trabalhar. Meu tio na época era gerente de uma fábrica de confecções, e levou-me para trabalhar na mesma empresa, onde aprendi tudo sobre a linha de produção. Na época, já era muito estimulado a continuar estudando após o ensino médio, a entrar no nível superior, e isso cada dia fazia mais sentido, sendo que a partir daí comecei a guardar parte do dinheiro que eu recebia trabalhando para poder pagar minha própria graduação. Meu pai estava indo muito bem com os negócios, até o ponto onde se envolveu com a política da cidade, apoiou um candidato a prefeito gastando muito dinheiro e todas as negociações que o auxiliariam foram negadas após a eleição do candidato, sendo que isso quase o levou para a falência total. A empresa de transporte, que contava com um micro-ônibus e três vans de transporte universitário, foi vendida. Meus pais então decidiram voltar para Caxias do Sul e sair da cidade. Neste meio tempo, tivemos a graça do nascimento do meu irmão mais novo (hoje com 4 anos). Quando fizemos a mudança, infelizmente deixei tudo para trás, incluindo amigos e emprego. Já iria iniciar o último ano do ensino médio, estava com o pé entrando para a universidade e sabia que precisava continuar trabalhando e estudando mais.

Para falar bem a verdade, nunca acreditei que teria a capacidade de conquistar uma vaga em uma universidade pública ou uma bolsa pelo ProUni em uma universidade particular. Meus pais e meus tios me criticavam, falavam que eu era capaz e iria conseguir, mas eu estava sempre desacreditado. Em Caxias do Sul, comecei a trabalhar em outra fábrica de confecções, onde fiz uma amizade enorme com os donos e com os demais funcionários. Estudava à noite em um colégio público. Saía às 18h para pegar um ônibus e chegar até o colégio, e para a volta pagava uma van para fazer o retorno todos as noites. O colégio era estadual, faltava muitos recursos incluindo livros (que os alunos da noite não recebiam porque era priorizado para os da manhã) e principalmente professores. Durante o ano todo, tive apenas 6 meses de aulas de matemática, espanhol, biologia e química, devido à falta de professores. E como à noite a maioria dos alunos eram trabalhadores (trabalhavam durante o dia e estudavam a noite), a direção do colégio ficava bem despreocupada, achando que muitos não se importavam com o estado crítico da educação que era nos repassada. Durante o 3º ano do ensino médio trabalhei e estudei muito. Aproveitava os finais de semana para revisar conteúdos e intercalava com horas extras no trabalho e cursos. Meus pais me ajudaram muito na escolha da graduação, me levaram para conhecer as universidades da cidade e conversar com os coordenadores de cursos, sendo que a minha primeira escolha foi a graduação em Farmácia. Como meus pais me apoiavam em todas as minhas decisões, novamente acataram meu pedido e me ajudaram muito. Na época resolvi voltar para o Paraná estudar, e então fiz vestibular em uma universidade privada em Cascavel, até pela minha descrença na possibilidade de pagar a graduação. Fiz o vestibular, fui aprovado em excelente colocação, realizei a matrícula e mudei para Cascavel. Na época, esta instituição de ensino iniciou o período letivo antes que todas as instituições da região, e até mesmo antes do resultado do ProUni e SISU, no ano de 2013. Eu havia me inscrito para os dois programas em cursos de graduação, e também realizado a inscrição em algumas universidades onde o processo seletivo era pela nota do Enem, e a forma de seleção era realizada pela própria instituição, bastando apenas a inscrição pelo site da universidade.

Passadas duas semanas de aula, eu já estava trabalhando durante o dia e estudando no período noturno, e veio a surpresa: fui aprovado em várias instituições, para cursos diferentes. E a maior alegria foi a aprovação com bolsa integral do Prouni para o curso de Medicina Veterinária, na PUCPR, câmpus Toledo. Meus pais ficaram enlouquecidos de tanta felicidade, creio que um equilíbrio comigo, porque fiquei simplesmente sem acreditar. Muito feliz em poder realizar meu sonho, que seria impossível se dependesse do pagamento. Novamente recebi apoio dos meus pais, apresentei à instituição todos os meus documentos, realizei a matrícula, e no dia 03 de fevereiro de 2014 tive o meu primeiro dia de aula no curso em que tinha certeza que era a profissão que eu queria para a vida toda, Medicina Veterinária. Logo no início fiz amizade com todos na turma, principalmente com estudantes de fora, assim como eu, que não conheciam a cidade, sem família próxima, simplesmente sonhadores que mudaram em busca de um futuro. Me aprofundei mesmo no espírito universitário, desfrutando desde o início de todos os recursos disponibilizados pela instituição, e um deste foi o convite para a realização de iniciação científica por uma professora de curso. Foi incrível e simplesmente maravilhoso receber uma oportunidade dessa já no primeiro ano de graduação. Continuei em busca, e comecei a fazer parte da Pastoral da Universidade, simplesmente uma das melhores coisas que me aconteceram na vida, passando a ser a minha segunda casa, meu refúgio dentro da universidade, que supre toda a falta da minha família. Passei a realizar projetos maravilhosos, ações sociais, momentos de fé, missões evangelizadoras… poderia escrever páginas e páginas sobre a minha experiência frente à Pastoral vinculada ao grupo de jovens da universidade (PJMU). Com certeza, este é um dos motivos de ter sido escolhido para dar meu testemunho de vida e hoje estar aqui escrevendo essa “carta”.

Na universidade, busco a obtenção de conhecimento, tenho sede de vencer na vida, ser um ótimo profissional, dar orgulho para meus pais, fazer a diferença na sociedade hoje e no futuro pós-formado. Sou Secretário Geral do Centro Acadêmico de Medicina Veterinária também, auxilio os demais alunos juntamente com o restante da equipe, buscando uma melhor inserção dos alunos dentro da universidade, sejam eles calouros do 1º período até mesmo formandos do 10º período. Mantenho amizade com muitas pessoas, coleguismo com inúmeros alunos de outros cursos, professores e demais funcionários da instituição, faço da PUCPR minha casa, o local onde já convivo há aproximadamente 3 semestres e está mudando minha vida para melhor. Em meio à correria do dia-a-dia, conheci uma menina maravilhosa e claro que não poderia deixar de citá-la aqui, minha namorada. Essa tornou-se parte de mim, me ajudando e apoiando em todas minhas decisões, e tornando ainda mais alegre minha vida já agitada e corrida, modelo com o qual eu me acostumei e sem ele, sinceramente, acho que não vivo.

Espero que quem esteja lendo esse pequeno resumo tenha conhecido uma parte de mim e que eu possa contribuir com o projeto Livro da Vida, passando aos demais um pouco da experiência de vida de um jovem de 19 anos. Agradeço imensamente pela oportunidade, abraço a todos!

HISTÓRIAS DE VIDA
Author: pollyanna

Get Connected